Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Veja, oiça, leia as diferenças (1)

 

Embora, pessoalmente, sempre tenha considerado ser o jazz uma música na qual é essencial o lado emocional da criatividade dos seus actores principais, em palco, não me parece ter sido a entusiasmante «batalha» final entre os dois tenores líderes, Joshua Redman e Branford Marsalis, o que de mais importante se passou no concerto de quinta-feira passada  [22.07.99], em termos objectivamente musicais.  E é de música que estamos a falar.

Muito cedo elevado pelos media da especialidade à categoria de quase génio, Joshua Redman teve de muito penar para chegar à maturidade estética de que hoje pode fazer alarde, conseguindo já renunciar à mera reprodução de uma panóplia de referências estilísticas de que fazia uso e abuso, para agora sobretudo as interiorizar e integrar inteligentemente num estilo que é cada vez mais o seu.  Terá sido isto plenamente confirmado na primeira parte do concerto que lhe coube em sorte assumir?  Sim e não.

Isto é:  no plano positivo, a ferocidade através da qual Redman começou por arrasar uma peça «intocável», como Summertime, afigura-se o terreno mais interessante que o saxofonista é hoje capaz de trilhar.  Do mesmo modo, a vertigem com que atacou, no alto, um original do seu álbum duplo gravado em 95 no Village Vanguard ou as transfigurações suscitadas, no soprano, pelo modalismo de um outro clássico, Eleanor Rigby, constituem sobeja prova de como Redman é capaz de abandonar o tecnicismo, por vezes demasiado meticuloso, que ainda o marca em excesso.

Já nessa outra pedra de toque que foi a balada Never End, tocada a meio da sua actuação, o esperado arrebatamento do grande músico que Redman é capaz de ser acabou por ficar submergido pela explanação meramente perfeccionista de meia dúzia de ideias melódicas, bem gizadas, é certo, mas às quais faltaram conteúdo emocional.

O caso de Branford Marsalis é completamente diverso.  O tirocínio das múltiplas vivências musicais e humanas que por inteiro assumiu, em ordem a uma plena formação cultural e artística, constituíram um dos segredos para que ele hoje possa permitir-se fazer de forma exemplar tudo o que queira, sendo que, no seu caso, a perfeição resulta como uma coisa natural e até inerente à própria linguagem do discurso musical que escolheu, partindo sempre do particular  (pequenas células temáticas que se vão desenvolvendo e ampliando)  para o geral.

É assim bem mais fácil falar-vos da parte do concerto que coube a Branford, já que, a exemplo da sua actuação do ano passado [1998] no Acarte, este Marsalis continua a revelar-se cada vez menos atraído pelas facilidades festivaleiras, capazes de enganar o ouvido, e mais refinado e até radical na sua tão diversa arte de composição espontânea, interagindo com os seus pares de forma estimulante e sempre apontando para um plano exigente, a todos os níveis da criação colectiva.

Quanto aos espantosos músicos que preencheram os lugares de ambos os quartetos, também aqui é difícil escapar às comparações. Até com os ausentes.  No piano, Aaron Goldberg conseguiu, no quarteto de Redman, fazer «esquecer» Brad Mehldau, revelando-se um músico altamente talentoso, ao qual, estou certo, irá prestar-se cada vez maior atenção;  já o mesmo se mostrou mais difícil de acontecer ao compararmos Joey Calderazzo com o saudoso Kenny Kirkland, embora a sua fulgurante musicalidade justifique a certeza de que poderá assegurar o lugar.

 

Reuben Rodgers foi mais subtil e inventivo do que o pendular James Genus, no contrabaixo, devendo entretanto sublinhar-se que este foi fortemente prejudicado pela captação demasiado choca e dura do seu instrumento. Finalmente, na bateria, Jeff «Tain» Watts é um impressionante motor em permanente combustão, jamais deixando de corresponder às solicitações dos seus companheiros e sempre preenchendo os eventuais hiatos com a oportunidade e o vigor das suas intervenções. Mas Gregory Hutchinson, explodindo embora de forma diferente, não deixou de revelar inteligência e sentido de grupo, contribuindo de forma óbvia para a coesão do quarteto de Redman.

_________________

 

(1) in "Diário de Notícias" (24.07.99)


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 10:13
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